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Mais uma vez, (neo) desenvolvimentismo

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Por Fernando Correa Prado

Durante a primeira década do novo século, o mesmo clichê se repetiu na análise da situação política na América Latina: a virada para a esquerda dos governos da região. Para onde ir agora?


Não se pode negar que vários dos processos eleitorais daqueles anos representaram uma transformação de enorme importância na conjuntura política da América Latina, marcada até então pela ofensiva neoliberal. É o caso das sucessivas eleições de Hugo Chávez Frías na Venezuela desde 1998; as vitórias no Brasil de Luís Inácio Lula da Silva em 2002 e 2006, seguidas das de Dilma Rousseff em 2010; a chegada de Néstor Kirchner à Casa Rosada em 2003 e de Cristina Fernández de Kirchner em 2007; os triunfos eleitorais no Uruguai da Frente Ampla, representada por Tabaré Vázquez em 2004 e por José “Pepe” Mujica em 2010; a ascensão de Evo Morales à presidência da Bolívia em 2006; as conquistas de Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua naquele mesmo ano; a fraude eleitoral no México em 2006 e, por fim, a acirrada disputa no Peru que em 2011 finalmente trouxe Ollanta Humala à presidência.

Após esse relativo consenso, entretanto, outra característica comum à maioria dos governos eleitos institucionalmente começou a chamar a atenção: o apelo ao desenvolvimento capitalista nacional como bandeira de ação. No Brasil, em particular, a proposta do “neodesenvolvimentismo” apareceu com novo vigor entre todos os que se levantaram a respeito das possibilidades futuras dos países latino-americanos. Reivindicando a herança do nacional-desenvolvimentismo das décadas de 1950 e 1960, alimentada pela promessa de um governo progressista após a eleição de um ex-sindicalista para a presidência, essa corrente tem buscado retomar o debate sobre o desenvolvimento nacional em diferentes níveis.

Questões que até recentemente apenas marginalmente entravam na pauta da discussão pública voltaram a se apresentar: quais as políticas sociais e econômicas que o Estado deve adotar para se inserir melhor no mercado mundial; quais atividades industriais deveriam ser promovidas estrategicamente e quais setores ficariam à mercê da competição internacional; bem como quais bens ou commodities têm maior peso internacional na nova situação e como poderiam servir de base para um melhor posicionamento do balanço de pagamentos nacional, entre outras questões.

Eles também ganharam um espaço maior, certamente, um pouco mais de reflexão crítica. Foram abertas discussões, por exemplo, sobre a natureza da integração regional que está sendo realizada, sobre a falta de incentivo à pesquisa de ponta em tecnologia ou, ainda, sobre a possibilidade de o país avançar estrategicamente em uma “nova” ordem. por meio de políticas apropriadas.

Debate crítico, mas perspectiva tradicional


Embora seja verdade que, diante do dogma neoliberal (segundo o qual a liberalização total é o caminho para o paraíso individual e, portanto, coletivo), esses temas de reflexão aparecem como um contraponto; É ainda evidente que os debates se dão a partir de uma perspectiva intelectual tradicional, formada pelo e para o establishment intelectual, sem questionar as raízes dos ideais desenvolvimentistas e suas linhagens adaptadas à “globalização”.

É isso que caracteriza o neodesenvolvimentismo: a busca do almejado "crescimento econômico com equidade social", que seria alcançado por meio de uma intervenção específica do Estado e de um pacto social entre as diferentes classes, todas elas validando o suposto "desenvolvimento nacional" .

Para se estabelecer tal objetivo, entretanto, o neodesenvolvimentismo tem que ignorar questões como o caráter do Estado no sistema mundial capitalista e, especificamente, nos países periféricos; o papel produtivo da América Latina no sistema; a forma particular de acumulação e reprodução do capital na região (formada e enraizada após séculos de colonialismo); a relação da burguesia interna dos países latino-americanos com a burguesia dos países imperialistas; e, é claro, as várias contradições inerentes à luta de classes sob o modo de produção capitalista.

Ao ignorar essas questões, o neodesenvolvimentismo recria em outra chave a ideologia do progresso típica da modernidade capitalista, segundo a qual todos e cada um dos países, se atuarem "adequadamente" (as medidas variam, mas geralmente favorecem o "mercado"), poderia atingir os padrões de vida do capitalismo central.

É possível que seja justamente essa análise incompleta que provoque a permanência de certas expressões para a classificação dos países: tradicional e moderno, primeiro mundo, terceiro mundo, desenvolvido, em desenvolvimento, “emergente, etc. Todos esses conceitos pressupõem que um determinado estado periférico pode atingir o padrão de vida daqueles apresentados como modelo.

Com a crise atual nos países centrais (Estados Unidos e União Europeia, além do Japão), esse modelo parece não ter mais tantos adeptos na América Latina, o que torna vazio um dos nós constitutivos do neodesenvolvimento, desde "horizonte de progresso" não é mais tão atraente. No entanto, muito mais é necessário para romper completamente com essa ideologia arraigada.

Pensamento crítico e superação da dependência

No plano intelectual, ou melhor, na “batalha de ideias” de que nos falou José Martí, é fundamental resgatar o melhor do pensamento crítico global e, neste caso específico, latino-americano. Durante as décadas de 1960 e 1970 foram forjadas muitas das chaves desse pensamento crítico latino-americano, que também fizeram parte da grande transformação por que passou o mundo no simbólico ano de 1968. Naquela época, intelectuais e militantes (Ruy Mauro Marini, Vania Bambirra, Theotonio dos Santos e Andre Gunde Frank, entre outros) realizaram uma rigorosa análise histórica e teórica sobre o caráter específico do desenvolvimento na periferia do sistema capitalista mundial, e particularmente na América Latina, apontando os limites intrínsecos da projeto de desenvolvimento.

Em linhas gerais, vários contributos conseguiram revelar que este mesmo desenvolvimento tem como consequência, precisamente, uma maior dependência dos países centrais. Além disso, destacaram que a dependência, ao se reproduzir internamente, reforçaria as relações de superexploração do trabalho e abriria a corrida ao “subimperialismo” para alguns países em relação aos seus vizinhos latino-americanos e alguns países africanos. É o caso do Brasil. Segundo esse diagnóstico, a superação da dependência não se daria por meio de meras reformas, mas passaria por uma transformação radical construída a partir da luta revolucionária pelo socialismo. Tal posição, portanto, não permite ilusões sobre o desenvolvimentismo. Retomar este posicionamento é uma tarefa necessária, embora não suficiente, para todos aqueles que procuram compreender e transformar este sistema.

A ruptura, na realidade, só ocorrerá na prática política na medida em que novos horizontes críticos resolvam os problemas concretos dos povos. Já que o horizonte capitalista está se abrindo, é hora de (re) construir esse novo horizonte.

Imagem de espaço reservado de Fernando Correa Prado, doutoranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil), é membro do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Este artigo foi publicado no nº 51 da Pueblos - Revista Informação e Debate - 2º Trimestre de 2012


Vídeo: Ciro Gomes debatendo com liberal na Universidade de Oxford (Junho 2022).


Comentários:

  1. Leveret

    Acho que você não está certo. Tenho certeza. Nós vamos discutir isso. Escreva em PM, comunicaremos.

  2. Nale

    A ideia admirável

  3. Daishura

    a ideia magnífica e oportuna

  4. Abdul-Wahhab

    Sinto muito, mas acho que você está errado. Vamos discutir. Me mande um e-mail

  5. Adwin

    Você está absolutamente certo.Neste algo é que eu acho que é um bom pensamento.

  6. Joen

    Voe para longe finalmente ...



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