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Porto Alegre: um passo à frente do movimento real

Porto Alegre: um passo à frente do movimento real


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Por Josep Maria Antentas

Na volta de Porto Alegre encontramos muitos colegas do movimento, muito céticos e distantes do Fórum Social Mundial, considerando que já era, ou estava condenado a ser, uma plataforma cooptada pela social-democracia.

De Seattle a Gênova, as reuniões e fóruns que serviram de referência para o movimento antiglobalização (1) receberam, em geral, uma avaliação positiva de todos os setores do movimento. Por outro lado, o Fórum Social Mundial, que realizou sua segunda edição em Porto Alegre em janeiro passado, suscitou forte polêmica, em que se expressaram pontos de vista muito diversos sobre seu significado e sobre seu futuro: assim, lemos hoje, desde a desqualificação global do ex-secretário geral da CGT, José María Olaizola, e de ativistas da CNT, a saldos muito positivos de pessoas tão diferentes como Rafael Alegría, secretário geral da Via Campesina, Christophe Aguiton ou Susan George, de ATTAC, Michel Albert, da rede Znet, ou José Vidal Beneyto, por meio daqueles que, reconhecendo aspectos positivos importantes, prevêem e simpatizam, com uma ruptura entre o setor reformista e o setor radical, como James Petras ... (2 ) Além disso, na nossa volta de Porto Alegre encontramos muitos colegas do movimento, muito céticos e distantes do Fórum Social Mundial, considerando que já era, ou estava condenado a ser, uma plataforma cooptada pela Social-Democracia.

Esses debates estarão presentes no desenvolvimento do Fórum Social Mundial, incluindo o Fórum Social Europeu (FSE), que acontecerá na Itália no final do ano (3), em cuja preparação já estamos imersos. Pensando neste processo, com o qual nos sentimos muito comprometidos, escrevemos estas notas, não como uma crônica, mas como um documento de trabalho, selecionando alguns pontos que podem ser de maior interesse para futuras atividades e discussões.

1. A Carta de Princípios. Poucos meses depois do Primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre em janeiro de 2001, o Conselho Internacional adotou uma Carta de Princípios que é sua única definição política. É um texto de natureza muito geral, mas bastante claro em algumas idéias centrais.

Por exemplo: O Fórum Social Mundial é um espaço de encontro aberto para aprofundar a reflexão, para um debate democrático de ideias, elaboração de propostas, livre troca de experiências e articulação de ações efetivas de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e à dominação do o mundo pelo capital ou por qualquer forma de imperialismo e que insistem na construção de uma sociedade planetária orientada para uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra. (...) As alternativas propostas pelo Fórum Social Mundial se contrapõem ao processo de globalização comandado por grandes empresas multinacionais e por governos e instituições que atendem aos seus interesses, com a cumplicidade dos governos nacionais. (…) Como espaço de debates, é um movimento de ideias que estimula a reflexão e a divulgação transparente dos resultados da reflexão sobre os mecanismos e instrumentos de dominação do capital e sobre os meios e ações de resistência e superação deste domínio (…) .

O texto admite leituras moderadas, reformistas ou radicais. Mas é preciso um notório cinismo para, por exemplo, apoiar a política antiterrorista do governo Bush em qualquer um de seus aspectos e, ao mesmo tempo, demonstrar concordância com o FSM. A participação em Porto Alegre II de deputados de orientação social-democrata que haviam votado em seus parlamentos a favor da guerra do Afeganistão provocou justificada e ampla indignação, manifestada pela delegação do movimento italiano em censura pública aos deputados do Democratas de esquerda presentes no Fórum Parlamentar.

A partir daqui, começa um interessante debate sobre a Carta de Princípios. Seria necessário modificá-lo para introduzir posições claras e enérgicas sobre questões tão decisivas como a guerra? O problema transcende o texto da Carta como tal e remete, na realidade, às características do Fórum como espaço unitário.

O FSM deve ter limites visíveis com seu antagonista, simbolicamente representado pelo Fórum Econômico Mundial de Davos (que este ano foi realizado em Nova York). A tentativa de estabelecer passarelas, convites mútuos ou outras instâncias de reflexão comum, recomendados por diversos promotores da globalização com rosto humano, enfraqueceria gravemente o caráter alternativo do FSM e abriria, sem dúvida, uma lacuna interna difícil de ser sutura. Mas, até agora, essa delimitação funciona, como foi verificado por um representante do Banco Mundial e pelo Primeiro-Ministro belga que viu seu pedido de credenciamento rejeitado.

Garantido isso, é positivo que o Fórum defina um campo político muito amplo, como o estabelecido pela Carta de Princípios, mesmo que seja utilizado por pessoas com pouca vergonha. O importante é que as pessoas e organizações que rejeitam seriamente o neoliberalismo, mesmo que sejam politicamente moderados, podem fazer parte da ampla aliança que precisa ser criada. Porque Porto Alegre, tanto I quanto II, mostraram que, nesse quadro, o setor militante do Fórum (termo que preferimos a outros, como movimentos radicais, alternativos ou sociais, por motivos que serão explicados adiante) pode trabalhar muito bem, tomar posições claras sobre os acontecimentos atuais e estender sua influência, que é um objetivo de primeira ordem.

Diante de questões de grande relevância e atualidade, como a guerra, o que faltou em Porto Alegre II não foi, pensamos, a reabertura de um debate constituinte sobre a Carta de Princípios, que teria consumido muita energia, sem garantia resultados positivos, mas sim a introdução formal do tema nas Conferências do Fórum, com uma discussão aberta entre as diferentes opiniões presentes que pudessem mostrar a plena luz do jogo de quem fala em Porto Alegre de que outro mundo é possível, apoiando o antigo. mundo em seus países.

2. Os outros Fóruns. No âmbito do Fórum Social Mundial, mas com autonomia deste, outras atividades são desenvolvidas, incluindo um Fórum Parlamentar e um Fórum de Autoridades Locais. É claro que são atividades de acompanhamento que não devem interferir ou competir com o FSM, que assume o papel pleno da iniciativa de Porto Alegre. É assim que é entendido, por outro lado, por muitos dos que participam desses fóruns com o objetivo de ampliar a luta que o FSM representa, constituindo redes de parlamentares e autoridades locais, comprometidas na prática com os princípios de Porto Alegre. .

Mas, na realidade, as relações entre os três fóruns não vão bem. Em Porto Alegre II, o Fórum de Autoridades Locais foi realizado antes do FSM; Teve um desenvolvimento muito discreto, a presença de seus participantes no FSM mal foi notada e só foi divulgada por uma resolução final pouco interessante e de tom muito moderado (...) Intervindo no cenário internacional para outra globalização, que excede o domínio financeiro atual, aceita organismos democráticos internacionais, é consistente com as decisões democráticas locais, nacionais e regionais e garante o desenvolvimento sustentável. (...) Decidem participar do programa proposto pelo Secretário-Geral das Nações Unidas para acompanhar o processo de paz no mundo e se comprometem a desenvolver a cultura da paz nas políticas públicas de inclusão social, realizando diplomacia governamental local e civil sociedade para que as cidades e suas instituições desempenhem um papel ativo para a paz); a decisão mais interessante adotada, se fosse realizada, seria a cooperação com as cidades argentinas (... uma iniciativa de solidariedade com as cidades argentinas foi lançada neste Fórum, com o objetivo de contribuir com material de apoio ao sistema de saúde local).

Quanto ao Fórum Parlamentar, a sua expressão mais visível foi o desembarque de uma grande delegação social-democrata, chefiada pelo PS francês, que é responsável pela absurda mas significativa oposição à nomeação do Afeganistão numa resolução ... contra a guerra ( 4). Também aprovou uma dezena de resoluções, algumas melhores e outras piores, mas cuja pouca utilidade foi diminuída pelo descrédito geral causado por todos os incidentes a que nos referimos.

Faz sentido realizar Fóruns paralelos no contexto do FSM? A vantagem está em manter o caráter exclusivamente social do FSM (O Fórum Social Mundial reúne e articula apenas entidades e movimentos da sociedade civil em todos os países do mundo, diz a Carta de Princípios). A desvantagem é canalizar atividades que são legitimadas por referência ao FSM, mas na verdade estão fora de suas atividades e, no pior dos casos, podem fingir falar em seu nome, ou outras formas de cooptação. Além disso, há um problema de imagem para o FSM derivado dessa relação equívoca com fóruns paralelos. Do lado de fora, as diferenças não são claras, o que favorece a confusão sobre o real perfil do Fórum Social Mundial. Muitos dos apoiadores da globalização com rosto humano, cuja presença em Porto Alegre foi veiculada com grande alarde, participavam apenas de fóruns paralelos, tinham uma relação marginal com o FSM, mas sua projeção midiática os fazia aparecer como porta-vozes dele.

O Fórum Social Europeu decidiu organizar um único Fórum com a ideia de integrar todos os debates nele, e pensando que esta é a melhor opção para evitar tentativas de cooptação e manobras semelhantes; vamos ver como a experiência vai.

Em qualquer caso, você deve tentar encontrar uma solução para esses problemas. A desconfiança nas instituições é amplamente percebida entre as organizações sociais (5) e as razões são inúmeras. O esforço para afirmar a soberania das organizações sociais em tudo o que se refere ao FSM se justifica. Mas devemos falar abertamente sobre quais são as áreas e as condições para uma colaboração útil com parlamentares e parlamentares e com as autoridades locais (entende-se, que para aqueles com quem esta colaboração faz sentido para o movimento). Até agora, os fóruns paralelos não estão funcionando bem.

3. Estruturas organizacionais. O Conselho Internacional (CI) dirige o FSM e tem poderes muito amplos: O CI será uma instância permanente que garantirá a continuidade do FSM (terá um papel protagonista na orientação das diretrizes políticas e na definição das linhas estratégicas do FSM. (...) O CI deve existir como um espaço permanente e abertamente articulado com outros movimentos e lutas sociais. O CI não será uma instância de poder e não terá mecanismos de representação ou de luta eleitoral. O CI deve contemplar em sua composição será um equilíbrio em relação à diversidade regional e de setores da sociedade e não será uma estrutura burocrática que pretende representar a sociedade civil. A representatividade do CI resultará de seus sucessos, ou seja, de sua capacidade de globalização, enraizar, dar organização e continuidade ao FSM (6).

A composição do CI foi estabelecida por cooptação do núcleo inicial do qual surgiu a ideia (basicamente, o Le Monde Diplomatique e as organizações sociais brasileiras que formaram o primeiro Comitê Organizador, em especial a CUT e o MST, com o apoio do autoridades de Porto Alegre e Río Grande del Sur. (7) Como as reuniões são abertas e a distinção entre membros e observadores não é clara, o CI tornou-se uma estrutura muito ampla (ONGs de vários tipos, sindicatos, redes de comunicação, centros estudos, organizações religiosas de solidariedade de diferentes confissões, organizações de mulheres, povos indígenas, campanhas internacionais, redes do movimento antiglobalização, pequenos grupos locais ...) de composição difusa, mas com capacidade decisória decisiva, por exemplo, especialmente o programa atua do FSM. O dispositivo transmite uma imagem opaca, aberta e inacessível (reminiscente da tirania do estruturas informais).

Provavelmente uma certa informalidade era inevitável, e até positiva no início. Mas à medida que as tarefas se diversificam e se tornam mais complexas, e o Fórum adquire maior peso internacional e, portanto, uma atratividade mais forte, essa nebulosa organizacional é uma fonte potencial de conflito. O problema não é trabalhar por consenso, o que é lógico em um processo tão amplo como o FSM, mas em quem são as organizações e pessoas que estabelecem o consenso, como o fazem, que informações dão sobre seus acordos e quais os mecanismos possíveis. ter participação, inclusive, podendo expressar divergências e fazer contrapropostas, daqueles que não fazem parte dos órgãos deliberativos.

Mais do que um amplo catálogo de padrões, o que é necessário são boas práticas e boas informações. A maneira mais simples de lidar com esses problemas é de baixo para cima e das partes para o todo. Por isso, o Fórum Social Europeu deve ser uma experiência importante, assim como a realizada pela secretaria de movimentos sociais que está a cargo da Via Campesina-MST e da CUT. Na primeira reunião internacional de preparação do FSE, realizada em Bruxelas no dia 9 de março, foi decidido optar por um esquema organizacional e um processo de preparação mais aberto e claro do que o do próprio FSM: falta de um Conselho Europeu do FSE; criação de grupos de trabalho temáticos e reuniões periódicas de coordenação abertas a todos os movimentos que queiram participar do processo, etc. É um passo na direção certa, embora seja necessário saber como concretizá-lo.

4. O desafio do 2º Fórum. Às vésperas de Porto Alegre II, o FSM teve que responder a um desafio: verificar se o movimento antiglobalização havia se recuperado do impacto político muito negativo do 11 de setembro. Acima de tudo, tratava-se de medir o ânimo do povo, a determinação em continuar a luta, a capacidade do FSM de servir de referência para organizações e movimentos contra a globalização neoliberal, sua utilidade para articular lutas contra o neoliberalismo e a guerra.… Em nos quatro meses que se passaram, os dados que chegaram do movimento internacional foram contraditórios: desenvolvimento desigual do movimento anti-guerra; reações muito fracas à Assembleia da OMC em Doha; Por fim, ainda não se sabiam as consequências de dois acontecimentos recentes: o caso Enron e os acontecimentos na Argentina, as outras duas torres gêmeas, nas palavras de Walden Bello.

A própria capacidade de convocação do II FSM foi um primeiro dado conclusivo e positivo: em Porto Alegre encontrou-se uma grande e representativa amostra do movimento, embora com desequilíbrios e ausências que veremos mais adiante. Além disso, o clima geral de esperança e entusiasmo não era simplesmente efeito da síndrome do território libertado, da possibilidade de conviver alguns dias compartilhando objetivos e projetos com milhares de pessoas de todo o mundo: expressou também, pelo menos por parte Muito considerável dos participantes, o compromisso de continuar a luta contra o neoliberalismo, o militarismo e a guerra, conforme o título da Declaração dos Movimentos Sociais.

Mas, além dessa avaliação geral, deve-se considerar que persistem dificuldades consideráveis. Por exemplo, a ligação entre a luta contra o neoliberalismo e a luta contra a guerra teve uma resposta muito positiva na Itália e também na Grã-Bretanha, mas essas são antes as exceções.

A situação nos Estados Unidos é um caso extremo na direção oposta: ali o 11 de setembro significou uma ruptura entre os sindicatos da AFL-CIO, que passou a apoiar Bush, e as organizações que tiveram a coragem de denunciar seu próprio governo. Houve alguns sinais de mudança positiva em Porto Alegre: primeiro, a presença de mais de 400 pessoas de organizações americanas, incluindo algumas daquelas que haviam sucumbido à pressão chauvinista alguns meses antes. O próprio dirigente da AFL-CIO, John Sweeny, participou no protesto em frente ao hotel onde se reunia o Fórum Económico Mundial, transferido de Davos para Nova Iorque e de lá enviou uma saudação cordial, embora ambígua, ao Porto Forum Happy. Algo está se movendo, mas muito devagar: nem mesmo as organizações ligadas ao movimento sindical e localizadas mais à esquerda, como Jobs with Justice, ainda ousam convocar ações de protesto contra a Assembleia do FMI e o Banco Mundial sobre o 17 e 18 de abril e se limitam a anunciar que seus militantes comparecerão individualmente.

Estas são expressões de um problema mais geral: a ofensiva global neo-imperialista após o 11 de setembro exige que o movimento vincule sua luta antiglobalização geral com os conflitos, crises e lacunas específicos que ocorrem na situação internacional: da Argentina à Palestina, da o caso Enron al Plano Colômbia, da nova edição da Rodada do Milênio da OMC lançada oficialmente em 1º de fevereiro até a ALCA (Acordo de Livre Comércio das Américas), que ameaça se firmar a taxas aceleradas em futuro imediato.

Como manter nessas condições, um amplo arcabouço unitário no FSM e a necessária articulação de lutas, em que se enfrentem conflitos diretos com instituições internacionais e governos, deve haver coerência entre a Declaração assinada em Porto Alegre e as ações e práticas acordos em cada país? Esta é a tarefa mais complexa que ficou pendente após o II FSM.

5. Reformistas e radicais. Na verdade, o Fórum foi dividido entre reformistas e radicais. (...) Na discussão das alternativas, os organizadores oficiais enfatizaram o imperialismo reformado e o capitalismo regulado, enquanto os movimentos sociais radicais abriram um debate e colocaram a discussão sobre o socialismo na mesa. A Declaração final dos movimentos sociais refletiu um compromisso entre os reformistas e os radicais. Por um lado, houve um diagnóstico radical dos problemas mundiais e um calendário repleto de mobilizações para todo o ano de 2002 e, por outro, as reivindicações finais refletiram em grande parte a inclinação dos reformistas para a troca de migalhas, deixando de lado qualquer estratégia demanda por um socialismo participativo e a derrota do imperialismo. (…). Esse julgamento de James Petras é representativo de algumas das críticas que Porto Alegre II tem recebido. Não entraremos para avaliar a Declaração, a qual reproduziremos posteriormente; cada um pode formar sua própria opinião. Em vez disso, estamos interessados ​​em discutir a análise das diferenças políticas que existem no FSM em termos de blocos ideológicos: reformistas e radicais, porque não parece uma boa abordagem.

É claro que há reformistas no FSM. Existem mesmo aqueles, como Susan George, que o declaram abertamente, o que é bem-vindo, pela clareza dos debates: É extremamente preocupante que a confiança na política dominante esteja se esgotando tão rapidamente. Por isso espero ter conseguido transmitir ao menos parte da urgência de lidar com os problemas que o movimento dos cidadãos tem apresentado: se não forem resolvidos, e em breve, teremos uma divisão social ainda mais pronunciada, um maior aversão às instituições nominalmente democráticas, endurecimento de posições, confronto e escalada da violência, principalmente estatal. E então aqueles que argumentam que o sistema mundial atual é incapaz de auto-regulação e reforma se mostrarão corretos. As pessoas que, como eu, estão lutando para evitar o caminho da repressão, revolta, violência e caos e estão propondo soluções práticas, as pessoas que esperam não uma forma indefinível de revolução mundial, mas uma espécie de Estado de Bem-Estar Universal, uma meta perfeitamente viável em termos materiais, será marginalizado ou radicalizado (8).

Seria muito bom se essas ideias fossem expressas não apenas em artigos, mas em debates dentro do FSM e houvesse a possibilidade de confrontá-las com ideias revolucionárias explicadas por aqueles que as defendem e, portanto, sem o halo apocalíptico que Susan George lhes impõe . Mas não acreditamos que estes sejam os debates prioritários no FSM e nestes tempos, nem que as discrepâncias mais significativas se expressem desta forma.

Se o objetivo é articular lutas, então os debates que devem ser priorizados são aqueles que afetam diretamente as lutas, tanto em seus objetivos e conteúdos, quanto na forma como são concebidas e promovidas. E aqui o problema é mais complexo. Por exemplo, podemos considerar Ricardo Petrella um reformista em suas posições gerais; Mas na luta contra o que ele mesmo chama de oligarquia global que se apodera da água potável e a favor da desmercantilização desse bem comum que deveria pertencer a toda a humanidade, Petrella é radical.

Outro exemplo: na luta pelo fim da dívida externa, há reformistas que apóiam totalmente a meta do perdão; Por outro lado, outros setores, ligados à campanha Jubileu 2000 nos países do Norte, estão propondo Tribunais Internacionais Independentes que emitem indenizações vinculantes para credores e devedores. Mesmo sem considerar alguns dos propostos como possíveis presidentes deste projeto de Tribunal (Camdessus !!!), essa ideia, defendida como realista e viável diante de propostas de perdão de dívidas inviáveis, tende a desorientar e dividir o movimento público. responder à mesma lógica de outras iniciativas de alívio da dívida que proliferaram nos últimos anos (sem demonstrar, a propósito, a sua viabilidade para alcançar melhorias reais significativas na situação dos países endividados).

Aqui há uma delimitação importante sobre a escolha dos objetivos da ação, ou de acordo com o critério de viabilidade pretendido, ou de acordo com o critério de fortalecimento dos movimentos sociais (um último exemplo: o objetivo da soberania alimentar é fundamental para o desenvolvimento do movimento, embora não seja viável nas atuais relações de forças).

6. O papel dos movimentos sociais. Precisamente porque o FSM é um espaço muito amplo e plural em que coincidem organizações e correntes muito diversas (por enquanto, é muito exagero falar de aliança, se é dado sentido prático ao termo), é fundamental criar agrupamentos enfoca que, respeitando o quadro unitário, eles se caracterizam pelo seu vínculo com as lutas sociais e pelo compromisso em articulá-las. Em Porto Alegre II, a justificada preocupação com o desembarque da social-democracia e as tentativas de cooptação do FSM criaram uma pressão adicional, neste sentido, muito visível desde o primeiro dia.

A Via Campesina, com a destacada colaboração da Focus on Global South, a CUT, o movimento italiano ATTAC-França ..., assumiu um papel dinâmico com grande habilidade e inteligência, direcionando a energia das organizações convocadas no sentido de dar um radicalizando e mobilizando todo o FSM e tentando perder o mínimo de tempo e trabalho possível nas batalhas pelo poder. Assim, pode-se dizer que a Declaração dos Movimentos Sociais, que é o documento mais representativo do FSM, conta inclusive com sérios apoios de organizações não particularmente radicais ou alternativas, mas que se consideram comprometidas, militantes, com o processo ali definido. Mas, dito isso, deve-se reconhecer que ainda há muito por fazer.

O próprio processo de elaboração da Declaração, embora tenha sido realizado em reuniões abertas, com grande desejo de consenso e com bons resultados, não pode substituir a troca de ideias e experiências essenciais para a consolidação da rede. Tem havido muito pouco tempo e espaço na agenda oficial do FSM para essas tarefas, o que já é um problema em si, porque há muito o que falar e discutir entre as próprias organizações do movimento.

Vale lembrar que além das grandes Conferências, o FSM foi palco de inúmeros encontros, oficinas e eventos diversos à tarde, organizados pelos diferentes movimentos e grupos presentes. Foi lá que aconteceram algumas das discussões e trocas mais interessantes. Naomi Klein e Lucca Casarini chamam esses espaços de costuras do Fórum. A fórmula é boa e esses espaços são, sem dúvida, muito importantes. Mas você também tem que entrar no tecido como tal.

Porque já existem problemas identificados que requerem uma reflexão geral. Por exemplo, aquela ignorância mútua que Michel Albert aponta: (A esquerda) dos Estados Unidos está terrivelmente isolada do resto dos movimentos e projetos do mundo. Não é apenas que nosso conhecimento do resto do mundo seja deficiente. É que outros têm alianças e afiliações que transcendem fronteiras e não estamos nelas, continuamos presos em nossas fronteiras. Quaisquer que sejam as causas, este é um problema que requer atenção urgente. Os EUA são o monstro, os ativistas aqui estão no coração da besta. E nem aqueles de nós que estão aqui dentro do monstro, nem aqueles que sofrem com a violência do monstro de fora, podem alcançar o que deve ser conquistado separadamente. (...) Assim como a esquerda nos Estados Unidos está isolada de muito do que acontece fora de nossas fronteiras, os movimentos externos não estão apenas isolados do que está acontecendo nos EUA, mas em muitos aspectos ignoram qual é a nossa situação. (9).

E também os problemas mais graves de invisibilidade destacados por Pierre Rousset: Mas a visibilidade dos mais explorados e necessitados ainda é muito desigual. Por exemplo, a organização francesa DAL (Droit au logement, Direito à moradia), assina a Declaração dos Movimentos Sociais, mas aponta como os sem-teto (sem papéis, sem-teto ...) foram pouco visíveis em sua redação. Há nisso um sério problema de imagem (alguns dos participantes do FSM ficam nos melhores hotéis da cidade) e um problema fundamental. Quanto maior for a fusão feita pelo movimento de identidades sociais específicas na expressão solidária de uma comunidade humana, maiores serão os riscos de que os setores que naturalmente possuem ferramentas de comunicação venham a monopolizar a palavra. Sem uma política voluntarística, os mais explorados e necessitados pagarão o preço da invisibilidade pela unidade. E suas demandas específicas vão se dissolver em um discurso generalista e unanimista.

Também neste sentido, é necessário observar as dificuldades dos jovens em ter um papel protagonista e ativo no Fórum como um todo. É verdade que houve um progresso notável entre o primeiro e o segundo FSM em termos de participação e presença dos jovens. Nesta segunda edição, mais de 15.000 jovens estiveram presentes no Acampamento da Juventude. No entanto, apesar desse progresso quantitativo, o papel no Fórum dessa nova geração militante, que vimos aparecer em Seattle ou Gênova, é significativamente menor do que seu peso real no movimento como um todo. Muitos dos debates, discussões e inquietações que se desenvolveram entre as redes e movimentos incentivados pelos jovens tiveram uma presença limitada no Fórum. Neste campo, devemos destacar o Laboratório de Resistência Global, organizado por algumas redes da Área da Juventude, no âmbito do qual foram discutidas estratégias de ação direta não violenta, as diferentes formas de ação e a diversidade de táticas, campanhas contra as multinacionais , o ressurgimento das lutas estudantis em alguns países, software livre…. O contraste com o foco geral das palestras do Fórum é impressionante.

Por fim, o líder do MST, João Pedro Stédile, expressou sua preocupação com a construção de um movimento ocidental e cristão; é verdade que o Fórum teve uma composição essencialmente latino-americana e europeia, com uma presença aceitável dos movimentos norte-americanos e uma presença muito limitada dos movimentos asiáticos e africanos. E há mais fronteiras que teremos que cruzar para conseguir uma maior participação de ambientalistas, feministas, sindicalistas, comunidades indígenas ...

Não será fácil, mas acreditamos que ele está no caminho certo. Marcos (de quem sentimos saudades há vários meses) explicou muito bem há algum tempo: Não, não queremos ser vanguardistas. As coisas são melhor produzidas e melhor desenvolvidas se as mesmas pessoas que participam estão dando sua própria contribuição histórica e não se uma nova arquitetura teórica que se opõe ao neoliberalismo e apresenta o Zapatismo como um novo dogmatismo mundial. Ainda precisamos aprender, ouvir, observar. Vamos criar redes de comunicação e nos encontrarmos, só isso. (10).

7. Um símbolo de que precisamos. A iniciativa de Porto Alegre é um diamante em bruto, que está apenas começando a esculpir facetas. Vários ao mesmo tempo, com orientações diferentes, umas mais próximas que outras: referente simbólico; troca de experiências e articulação de lutas; espacio de contaminación mutua, como dicen los colegas italianos; debate de alternativas al neoliberalismo; constitución de un movimiento de movimientos sociales o una nueva Internacional … Hay que considerarlas todas en sí mismas y en sus relaciones y contradicciones para hacernos una composición del lugar y de sus posibilidades. Veamos para finalizar, la faceta simbólica.

En enero del 2001, el Foro Social Mundial nació como una alternativa a un símbolo del neoliberalismo: el Foro Económico Mundial de Davos: reunión de líderes políticos, dirigentes del Banco Mundial, del FMI y de la OMC y la flor y nata de las grandes transnacionales frente a reunión de organizaciones y movimientos sociales; apología neoliberal frente a rechazo del neoliberalismo y el dominio del mundo por el capital y por cualquier forma de imperialismo; un elitista refugio en los Alpes suizos, lleno de dinero y muerto, frente a una ciudad del Sur abierta y llena de vida, dirigida por el PT, una de las poquísimas organizaciones de la izquierda política que sobrevive al desprestigio y al declive generalizado de la última década, creadora además de una herramienta de gobierno municipal y participación social, el presupuesto participativo , que se presenta como un ejemplo de las alternativas posibles a las reglas universales impuestas por el neoliberalismo.

Un año después, la nueva situación internacional creada tras el 11 de septiembre, sometió a prueba la capacidad del FSM para ser efectivamente el símbolo de la resistencia internacional frente a la ofensiva dirigida por la Administración norteamericana.

Se puede medir el resultado de la prueba desde muchos puntos de vista. El más visible, aunque no el más importante, es el impacto en los medios de comunicación. La primera impresión fue buena: se hablaba mucho de Porto Alegre; incluso, medios de comunicación muy influyentes daban una importancia similar a las informaciones del Foro Económico Mundial que se desarrollaba en Nueva York y a las de Porto Alegre. Pero los grandes medios seleccionaron los portavoces correctos del Foro Social Mundial: en su mayor parte, personalidades políticas o intelectuales con un discurso tipo otra globalización es posible. El problema se agravó porque, aunque se habló mucho en el Foro sobre la contra-información, en la práctica no funcionó bien la información alternativa. El tema merece una reflexión con calma porque está claro que es vital para el futuro del movimiento.

Es importante llegar a los grandes medios, pero con nuestra propia voz y en los momentos adecuados. Y siempre hay que tener garantizada una red alternativa. En Porto Alegre no faltaron las posibilidades técnicas: incluso se montó una web, con el apoyo entre otros de Le Monde Diplomatique, (www.portoalegre2002.org) y hasta una red llamada Ciranda que aspiraba a ser el referente de la información alternativa. Resultaron productos artificiales, sirvieron para muy poco y desaparecieron, sin pena ni gloria, poco después de la clausura del Foro. Esta vez, se echó en falta la presencia activa de los colegas de Indymedia, habitual en el trabajo de contra-información en todas movilizaciones internacionales… Por otra parte, muchos de los participantes enviaron crónicas a diversos medios, fueron entrevistados, etc. Pero organizar la contra-información requiere una coordinación de esfuerzos, que no se limite a confiar en la convergencia espontánea simbolizada en la célebre imagen de la nube de mosquitos. A fin de cuentas, mucha gente del movimiento terminó mirando a Porto Alegre a través de las gafas de los grandes medios. Tenemos que intentar evitar que esta situación se repita o, al menos, aminorar sus efectos.

En cualquier caso, el Foro Social Mundial es hoy la única instancia internacional con reconocimiento mediático y un apoyo social y político amplio, no subordinada a los EE UU.

En términos de relaciones de fuerzas, por supuesto, no hay comparación posible; en cambio, en términos simbólicos, es importantísimo (11). Un movimiento social internacional en esta época necesita referentes simbólicos que representen el rechazo del orden existente y la voluntad de construir un sistema alternativo.

Un símbolo así no ahorra la tarea de formular objetivos, articular luchas, ampliar la influencia las ideas y las propuestas alternativas o radicales, afrontar los conflictos internos sobre la orientación del movimiento, etc.

Pero crea las mejores condiciones posibles para que esas ideas y propuestas se desarrollen dentro de una alianza amplia capaz de acoger las voluntades que van despertando los estragos del neoimperialismo. Una Internacional sin dueño, como ha definido al FSM el revolucionario peruano Hugo Blanco. Sin Dios, ni dueño, decían los viejos anarquistas. Para que pueda ser de todas y de todos.

8. El paso adelante. Más allá de la cantidad y la calidad de los debates, de las ideas y las propuestas. Más allá de las relaciones creadas o fortalecidas entre las organizaciones y movimientos. Más allá del calendario de movilizaciones acordado. Más allá incluso de la moral, la energía y la voluntad de lucha que se ha renovado en Porto Alegre. Lo que de verdad importa es algo que parece mucho más modesto: el paso adelante del movimiento real.

Una de las frases más citadas de Marx dice: Cada paso del movimiento real vale más que una docena de programas. No se trata de devaluar a los programas (12), pero sí de reconocer dónde está el punto de referencia y la prueba de la verdad de todo lo que hacemos o nos proponemos hacer.

No sólo ha habido en Porto Alegre II más gente: hay ahora más movimiento, aunque no todo el movimiento; más proyectos de extenderlo; más conciencia de los problemas que tenemos por delante; compromisos más ambiciosos (como realizar y apoyar internacionalmente la campaña de los colegas latinoamericanos contra el ALCA); mejores herramientas para seguir trabajando, como el Foro Social Europeo; más posibilidades de incorporar a corrientes, sectores y países, que, por unas u otras razones, no están participando en el proceso.

Hemos dado un paso adelante. Podemos estar satisfechos. Pero sólo servirá si ahora somos capaces de dar el paso siguiente. Como en Barcelona.

1) Utilizamos este nombre, que no gusta ya a casi nadie, a falta de otro que obtenga suficiente adhesión lo que hasta ahora no ocurre, por ejemplo, con movimiento por la justicia global y evite ambigüedades indeseables como, por ejemplo, movimiento por otra globalización .

2) Estos textos han circulado ampliamente por la red. Pueden encontrarse en: www.rebelion.org www.sodepaz.org www.acsur.org www.zmag.org y en las entrevistas que publicamos en estas mismas páginas de Viento Sur (http://nodo50.org/viento_sur).

3) Ver más adelante la nota informativa sobre la preparación del FSE.

4) Puede encontrarse información amplia sobre este asunto en la entrevista que publicamos más adelante con Pierre Rousset.

5) Que incluye, también, la precaución ante posibles interferencias de las instituciones de la ciudad de Porto Alegre y del Estado de Río Grande del Sur gobernadas por el PT, aunque lo que predomina en este caso es una buena colaboración.

6) La composición del CI y su estatuto se encuentran en la web del Foro www.forumsocialmundial.org

7) En la web de Foro hay una crónica detallada del proceso que dio origen al FSM escrita por Francisco Whitaker.

8) Susan George. El movimiento global de ciudadanos. Foreign Affairs, Primavera 2002.

9) Michel Albert http://www.zmag.org/Spanish/0402albert.html

10) Le Monde Diplomatique. Edición española. Nº 45-46. Julio-Agosto 1999. Pág. 5.

11) En realidad, los intentos de cooptación del Foro parten de aquí: la socialdemocracia, y quienes la acompañan en la maniobra, quiere apoderarse del símbolo para darse un lifting que tape la legitimidad perdida.

12) La frase se encuentra en una carta de introducción a uno de los textos programáticos fundamentales del marxismo (Crítica del Programa de Gotha, 1875) en el cual Marx no deja pasar, no ya una palabra, ni una coma, que pueda desvirtuar, desviar o confundir las ideas y los objetivos revolucionarios.

*Josep Maria Antentas participa en el Movimiento de Resistencia Global (MRG) y en la Campaña Contra la Europa del Capital, de Barcelona
Josu Egireun es miembro de Hemen eta Munduam
Miguel Romero es redactor de Viento SurPublicado en Viento Sur nº 61


Video: Arte, impacto e elaboração (Julho 2022).


Comentários:

  1. Austin

    Que frase talentosa

  2. Yolar

    Aqui pode aqui a falta?

  3. Einion

    É claro. E eu encontrei isso. Vamos discutir esta questão. Aqui ou em PM.



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