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O compromisso com outras formas possíveis de pensar e habitar a vida

O compromisso com outras formas possíveis de pensar e habitar a vida


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Resenha do livro “A aposta pela vida. Imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do Sul. " por Enrique Leff (2014)

“(…) Muita luz cega. Os povos expostos à repetição estereotipada de imagens também são povos expostos ao desaparecimento ”.

(Didi Huberman, 2014, 14)

Apostar na vida é, na abordagem de Enrique Leff, “uma mudança na vontade de dominar a natureza e os outros, para a vontade de poder amar a vida” (3) que implica repensar e re-fundar nossa humanidade possível e nossos modos de habitar no mundo. Uma questão perpassa e preocupa nossa leitura: Teremos nós, como humanidade, imaginação sociológica para desconstruir a racionalidade insustentável e criar outra racionalidade possível?

La crisis ambiental y la muerte entrópica del planeta que habitamos y nos habita son crisis de nuestros modos de producción y de comprensión de conocimiento, crisis de las escisiones fundacionales que irrumpieron con la(s) modernidad(es), los capitalismos y el Iluminismo de a razão. De fato, nossa compreensão científica do mundo deve a essas modernidades hegemônicas, à racionalidade da modernidade que conseguiu se impor “desterritorializando outras formas de ser no mundo”. (12) Para Leff, a crise ambiental é o sinal e o sintoma mais forte desse limite da modernidade. Nesse sentido, ele afirma que as ciências sociais foram construídas "no esquecimento da natureza e na cegueira ambiental" (7). Porém, “a questão ambiental não é reabsorvida na ordem da racionalidade da modernidade, mas remete a outra ordem de racionalidade, a de uma racionalidade ambiental” (15), pois a consciência dessa crise implica a compreensão do limite da racionalidade que o configurou (224). Esse compromisso com a vida, essa outra racionalidade, abre uma nova forma de entender o mundo e propõe um novo esquema das ciências sociais.

Enrique Leff postula a racionalidade da modernidade como forma hegemônica de produzir o mundo que capitaliza / mercantiliza e homogeneíza as diferentes formas de vida. Essa racionalidade científica, econômica e instrumental legitima formas de apropriação e transformação econômico-tecnológica de natureza finitizada, tornadas recursos escassos e externalidades do processo produtivo. Essa vontade de conhecer e de potenciar que o saber perito soube construir deu lugar à existência de uma “racionalidade insustentável” (210). É uma racionalidade indolente, como argumenta Boaventura de Sousa Santos, que domina o mundo através do desperdício e da alienação da experiência humana.

O conhecimento posto a serviço da produtividade e do lucro rompeu a relação do saber com o tecido da vida. (...) Tornada suporte da razão econômica, produz desconhecimento do ser e proscreve a experiência vivida como fonte de conhecimento (221).

A crise ambiental é uma crise da racionalidade da modernidade, da razão científica; No entanto, não é uma crise derivada da lógica interna de funcionamento da ciência (revoluções científicas, mudanças de paradigma, descobertas científicas), mas antes surge como efeito dos padrões de conhecimento, acumulação e objetivação do mundo que ela formula. Em seu percurso histórico pelos temas que ocuparam a reflexão e a pesquisa sociológica nas últimas décadas do século XX, Leff destaca a questão da ordem e da mudança social, do movimento e do futuro das sociedades, e assinala como a sistematização do campo Epistemológico não o faz. incorporar na história recente das ciências sociais a emergência das ciências da complexidade e da crise ambiental, dois fatos fundamentais que irrompem no campo do conhecimento.

A crise da razão permitiu a abertura e o surgimento de outras abordagens epistemológicas, de outras "matrizes de racionalidade", a emancipação do "conhecimento subjugado pelo colonialismo epistemológico do pensamento eurocêntrico que ignorou, desativou e enterrou outras visões de mundo culturais" (314) e a legitimação de outras experiências sociais, outros conhecimentos e outras formas de conhecer.

Diante dessa racionalidade que marca seu limite com a impossibilidade de dar respostas à crise ambiental, a racionalidade ambiental surge como a possibilidade e potência de criar ética, estética e outras formas de habitar politicamente o mundo. Ela configura e constela territórios epistêmicos e ecológicos de vida e sustentabilidade. Nesse sentido, busca territorializar "os princípios ontológicos do pensamento pós-moderno - a ontologia existencial de Heidegger, a ontologia da diferença de Derrida e a ontologia da diversidade de Deleuze e Guattari no campo da ecologia política" (25).

Essa racionalidade é crítica para que a modernidade possa ser chamada a refletir sobre suas bases teóricas, éticas e instrumentais. Essa racionalidade sustenta que "a modernização reflexiva é o eterno retorno do mesmo" (211)

A racionalidade ambiental se apresenta, mais do que um paradigma ou modelo axiomático, como um modo de pensar, um pensamento abrangente que territorializa uma multiplicidade de "matrizes de racionalidade" e se constrói em um diálogo de saberes. Essa racionalidade se configura na emergência da complexidade ambiental, complexidade ontológica e epistemológica que abre a possibilidade de pensar e criar outros diversos modos de habitabilidade do mundo, na imanência neguentrópica da vida ", que não são um retorno à pré-modernidade, e que o termo pós-modernidade não é suficiente para conceituar. " (vinte)

Outra sociologia ambiental insere-se no novo esquema das ciências sociais que abre essa racionalidade. É uma sociologia comprometida com o presente crítico do mundo e com o futuro pouco promissor em termos de sustentabilidade planetária, que busca re-compreender o mundo atual a partir de uma perspectiva inquisitiva; “É um manifesto de combate a uma sociologia desligada das raízes da vida e subsumida no processo de racionalização de uma modernidade insustentável” (34) É uma “sociologia emancipatória” que procura criar novos territórios na heterogénese da vida e

Promover o acontecimento do possível a partir da imanência da vida, das suas potencialidades negentrópicas, do pensamento e da ação criativa que fecundam o real, da solidariedade com os processos sociais em curso; desde a recuperação do que, tendo surgido, foi subjugado pelo poder hegemônico de colonização e globalização do mundo; do que foi incivilizado: invisível, desvalorizado, marginalizado pela subjugação de outros conhecimentos (41)

É uma sociologia da solidariedade das ecologias, naturezas, economias, culturas, racionalidades, modernidades, saberes.

O pensamento ambiental cria outro diálogo possível entre disciplinas que atuam na relação natureza / cultura, abrindo assim "um novo espaço de compreensão sociológica e um desafio epistemológico para dar consistência à polissemia conceitual e às transferências disciplinares (...)" (28) . Nesse sentido, Leff sustenta que a epistemologia da sociologia ambiental deve distinguir os sentidos de ordem, entropia e neguentropia como conceitos pertencentes ao campo disciplinar das ciências naturais, a fim de construir / territorializar seu significado no campo das ciências sociais. Esta epistemologia ambiental não é um princípio de exclusão ou legitimação dos modos possíveis de cognição do mundo, mas sim uma abertura à inteligibilidade e compreensão dos vários modos sociais de produção de conhecimento, racionalidades e verdades por vir.

A emergência de atores sociais “do ambientalismo”, “habitados pelo desejo de viver e mobilizados pelo direito de estar no mundo diante da morte entrópica do planeta” (87), insere-se no campo da ecologia política. , na medida em que estratégias de confronto e aliança se configuram em torno de visões, interesses e valores diversos e diversos em torno da reapropriação social da natureza e da emergência e construção de outra sustentabilidade possível: um movimento multiclasse com protagonismo na construção de imaginários em que um futuro sustentável é possível. Surgem, tornam-se visíveis e audíveis, “novas identidades dispersas que se articulam e solidárias através das redes sociais, colocando em ação uma política da diferença nos processos de reapropriação da natureza, em que se configuram novas identidades culturais” (295); é um movimento socioambiental multifacetado, multiclasse e complexo.

A racionalidade ambiental territorializa novos mundos / modos de vida ao se abrir para o diálogo do saber, é ela que criou o espaço e a potência criativa das verdades (coletivas) por vir. Esta emerge do encontro de imaginários de sustentabilidade (Imaginários do Bem Viver, Suma Quamana, Sumak Kawsay), de racionalidades e valores que não se fecham sobre o que já foi dado, mas se abrem para a criatividade cultural de mundos sustentáveis. da vida por -come. A racionalidade ambiental acolhe o germe das novas linhas embrionárias, latências que existem mas ainda não encontraram seu nome.

É uma nova ética política que "dispõe o mundo para fertilizar diferenças" e heterogeneidades. Esse diálogo de saberes faz contar como heterogeneidades composíveis e disponíveis “saberes enterrados” e “saberes corporificados”, no processo de emancipação, que territorializam outras formas de vida (252), bem como o surgimento e potencialidade do que ainda não foi. foi, "ainda não" e, portanto, sem nome.

Seria, como sustenta Georges Didí-Huberman (2009), fazer os povos aparecerem, apesar de tudo, como os sobreviventes de um “conhecimento-vaga-lume” (101) (dos estados de luz e dos estados de voz), de luzes pequenas, pequenas transientes, intermitentes, intersticiais, dançantes, erráticas, resistentes e insistentes brilhos que aparecem como uma alternativa para tempos muito escuros ou muito brilhantes, uma luz menor com um “forte coeficiente de desterritorialização”. (39) “Las sobrevivências (...) nos ensinam que a destruição nunca é absoluta - mesmo que seja contínua (...) ”(65)

Enrique Leff argumenta que não existe uma forma única de "viver bem" ou de exercer a autonomia como práxis emancipatória que cria o "radicalmente outro" em que a natureza se torna política. Estratégias de emancipação, o clamor por justiça ambiental e criatividade para construir mundos alternativos sustentáveis ​​tornam-se apostas fundamentais que devemos fazer todos os dias para continuar vivendo, resistindo nas trincheiras e reexistindo em nossos territórios.

* Débora Andrea Cerutti: Centro de Pesquisas da Faculdade de Filosofia e Humanidades "María Saleme de Burnichon" (CIFFyH) - CONICET. [email protected] ArgentinaMarcela Cecilia Marín: Centro de Pesquisas da Faculdade de Filosofia e Humanidades "María Saleme de Burnichon" (CIFFyH) - CONICET. [email protected] Argentina
Citação sugerida: Cerutti, D.; Marín, M. (2016). O compromisso com outras formas possíveis de pensar e habitar a vida. Sociology Questions, 14, e011. Obtido em http://www.cuestionessociologia.fahce.unlp.edu.ar/…
Bibliografia
Leff, Enrique (2014). A aposta para a vida. Imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do sul. Vozes editora, Mexico.Didí-Huberman, Georges (2009). A sobrevivência dos vaga-lumes. Abada Editores, Madrid.Didí-Huberman, Georges (2014). Cidades expostas, cidades figurativas. Manantial, Buenos Aires.

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