TÓPICOS

Setor agrícola e mudanças climáticas

Setor agrícola e mudanças climáticas


We are searching data for your request:

Forums and discussions:
Manuals and reference books:
Data from registers:
Wait the end of the search in all databases.
Upon completion, a link will appear to access the found materials.

Por Gerardo Honty

Nos últimos anos, um novo fator de preocupação surgiu no setor:

emissões de gases de efeito estufa (GEE) e mudanças climáticas. A principal preocupação está centrada na maneira como as mudanças climáticas estão afetando esses itens produtivos: secas, mudanças nos padrões de precipitação, tempestades de granizo, aumento da temperatura, etc .; mas também na contribuição de suas emissões para o próprio fenômeno das mudanças climáticas. A maioria dos países latino-americanos incorporou legislação ou políticas específicas e criou mecanismos institucionais para enfrentar o novo problema.

Mas o desenvolvimento agrícola também está intimamente relacionado a outro setor altamente relevante para as mudanças climáticas: a silvicultura. A fronteira agrícola se expandiu - e certamente continuará se expandindo - às custas das florestas. A perda de florestas causa emissões de CO2, enquanto a nova florestação captura CO2 da atmosfera. Por isso, do ponto de vista da análise das mudanças climáticas, esses aspectos são considerados conjuntamente em um grande setor denominado AFOLU, que significa Agricultura, Pecuária, Silvicultura e Outros Usos do Solo.

As emissões de GEE de todas as atividades AFOLU são muito significativas na América Latina, consideravelmente mais do que ocorre na maioria das outras regiões do mundo. Em nível global, as emissões dos setores agrícola e florestal representam um quarto das emissões globais. Porém, na América Latina, esse percentual ultrapassa os 50% e por isso se tornou fundamental para a região.

Em 2012, as emissões totais de GEE da América Latina foram de 4.560 MtCO2e [1].

Desagregando-os por categoria, 900 MtCO2e (20%) vieram da Agricultura, enquanto 1.430 MtCO2e (31%) foram causados ​​por emissões de desmatamento [2]. Os principais gases emitidos pela Agricultura são: N2O (óxido nitroso) - derivado da aplicação de fertilizantes sintéticos na maioria das áreas - e CH4 (metano) originado principalmente da cultura do arroz. No caso da Pecuária o principal gás é o CH4

(metano) produto da fermentação entérica de gado e estrume. No setor florestal, o principal gás é o CO2 que é lançado na atmosfera nos casos de corte e principalmente nos processos de desmatamento de florestas e florestas naturais.

O desenvolvimento agrícola das últimas décadas na região aumentou a fronteira pecuária em detrimento das florestas, o que não só gerou maiores emissões como também favoreceu as condições para que os impactos locais das mudanças climáticas fossem maiores; por exemplo, que as inundações têm efeitos mais graves. Por outro lado, as monoculturas agrícolas têm se expandido (principalmente a soja), em muitos casos causando o desmatamento por conta própria ou como resultado do deslocamento de gado. Essas monoculturas acabam reduzindo a capacidade adaptativa natural dos ecossistemas agrícolas, contribuindo também para agravar os efeitos das mudanças climáticas.

A influência das negociações internacionais

Nas negociações internacionais sobre mudanças climáticas, há vários temas que se cruzam nas discussões sobre questões agrícolas. Por um lado, a Adaptação, ou seja, que medidas são adotadas para tentar reduzir os efeitos das mudanças climáticas na produção agrícola. Por outro lado, Mitigação, ou seja, como se reduz a contribuição desse setor para as emissões globais de GEE. E por último o Financiamento: quem deve arcar com os custos de Adaptação e Mitigação do setor.

Durante o último mês de dezembro, a 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção sobre Mudança do Clima, reunida em Paris, decidiu que os países deveriam apresentar, até 2020, suas Contribuições Predeterminadas em Nível Nacional (CPN). Devem indicar os esforços que estão dispostos a fazer tanto para reduzir as emissões de GEE quanto para adaptar seus sistemas de produção à nova situação.

Esta decisão tem uma longa história, de forma que os países latino-americanos têm trabalhado nos aspectos de Mitigação e Adaptação às mudanças climáticas nos setores agrícola e florestal. Antes da reunião de Paris, os países tiveram que apresentar suas INDCs (Nationally Determined Contributions) e a maioria dos países latino-americanos incluiu medidas relacionadas ao setor agrícola [3].

No entanto, os países da região argumentaram nas negociações que os custos de mitigação e adaptação nos países em desenvolvimento deveriam ser assumidos pelos países desenvolvidos em virtude do Princípio das Responsabilidades Comuns, mas Diferenciadas. Por esse motivo, a maioria das ações propostas está condicionada à contribuição financeira internacional.

Das ações ou metas que os países latino-americanos estão dispostos a realizar com seu próprio esforço, podem ser citadas como exemplo:

-O Uruguai, único país que inclui mitigação no setor pecuário, está empenhado em reduzir a intensidade das emissões de metano e óxido nitroso em

33% e 41%, respectivamente, em relação a cada kg de carne até 2030, usando 1990 como ano base.

-Oito países (Argentina, Bolívia, Brasil, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru e Uruguai) mencionaram que usarão mais biocombustíveis de biomassa. O Brasil estabelece uma meta específica para o biodiesel: aumentar em 18% a proporção do biodiesel na matriz energética até 2030.

-A Argentina destaca diversas iniciativas do setor agropecuário como a semeadura direta, rotação de culturas e agricultura de precisão, embora não estabeleça metas específicas.

-O Brasil pretende restaurar 12 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030, juntamente com a melhoria de cinco milhões de hectares de sistemas agrossilvipastoris integrados.

-Costa Rica propõe várias medidas para gerenciar sumidouros de carbono (planos de uso da terra, reflorestamento, desmatamento evitado) como uma opção de mitigação.

-O Uruguai pretende captar 13,2 MtCO2 no setor florestal.

Em geral, todos os países propõem metas mais ambiciosas, contanto que sejam auxiliados com os recursos financeiros para realizá-los. Esse será um dos eixos dos debates nos próximos anos. Mas você não será o único quando se trata de atividades AFOLU.

Argentina e Uruguai, dois dos principais produtores agrícolas da América Latina, têm argumentado nas negociações que as emissões derivadas da produção de alimentos devem ser consideradas de forma diferente das demais emissões. Seu argumento é baseado no Artigo 2 da Convenção, que afirma que a produção de alimentos não deve ser ameaçada pelas mudanças climáticas. Esse argumento foi reforçado no Acordo de Paris, que estipula em seu artigo 2º que “o desenvolvimento com baixas emissões de gases de efeito estufa deve ser promovido, de forma que não comprometa a produção de alimentos”. Portanto, é de se esperar que nas negociações que ocorrerão nos próximos anos, este seja um tema central para os países agrícolas da região.

Por outro lado, vários países produtores agrícolas - e não apenas da região da América Latina - discutem há anos as metodologias de cálculo e medição das emissões da pecuária e da agricultura.

Particularmente a maneira de estimar o potencial de aquecimento global do metano e do óxido nitroso.

Sustentabilidade agrícola

A produção agropecuária, bem como os processos de desmatamento, acumulam impactos negativos no meio ambiente latino-americano há várias décadas. O fenômeno das mudanças climáticas só agrava a situação dos ecossistemas já bastante deteriorados. As repercussões políticas decorrentes das negociações internacionais acrescentam um novo sinal da necessidade de uma mudança de orientação nos modos de produção do setor agrícola.

Nesse sentido, o fenômeno das mudanças climáticas é uma oportunidade para os governos da América Latina avançarem em políticas públicas que travem o desmatamento e promovam práticas agrícolas mais sustentáveis ​​do ponto de vista ambiental. É também uma oportunidade para a sociedade civil, preocupada com essas questões, propor uma agenda de política florestal, agrícola e pecuária com uma perspectiva ecológica.

Já existem evidências suficientes dos impactos locais dos atuais modelos de produção e agora existe também uma preocupação internacional com os impactos globais derivados das mudanças climáticas. Os governos têm a obrigação de apresentar Contribuições Nacionais para Adaptação e Mitigação das mudanças climáticas. Cabe também à sociedade civil fornecer conteúdos de profunda transformação a esses setores produtivos para recuperar ecossistemas degradados e garantir a sustentabilidade futura da agricultura na região.

Gerardo Honty é analista do CLAES (Centro Latino-Americano de Ecologia Social)
(Originalmente publicado no relançamento de Agropecuaria.org, portal do CLAES sobre desenvolvimento rural e sustentabilidade)
[1] Megatons de CO2 equivalente. Unidade de medida que unifica todos os GEEs de acordo com seu potencial de aquecimento global.
[2] Climate Data Explorer, World Resources Institute. www.cait.wri.org
[3] IICA. “O setor agrícola nas contribuições planejadas e determinadas a nível nacional da América Latina”
Http://infoagro.net/archivos_Infoagro/Ambiente/biblioteca/ES_ContribucionesLACfin.pdf

ALAINET


Vídeo: GEOGRAFIA. MUDANÇAS CLIMÁTICAS. PRA ACERTAR TODAS AS QUESTÕES (Pode 2022).