TÓPICOS

"Que a morte de Berta e o sofrimento atual de Gustavo não sejam em vão"



We are searching data for your request:

Forums and discussions:
Manuals and reference books:
Data from registers:
Wait the end of the search in all databases.
Upon completion, a link will appear to access the found materials.

Por Sergio Ferrari

Q: Qual é a memória, a imagem que resta de Berta Cáceres assassinada em 3 de março em Honduras?

Philipp Gerber: Berta rompeu com os estereótipos de ativista de uma causa. Ela era muito mais do que uma líder em sua organização. Ele se mobilizou frontalmente contra o golpe em Honduras em 2009. Denunciou a presença de bases militares dos Estados Unidos em seu país. Movimentou-se com muita facilidade tanto nas redes feministas quanto no lobby internacional, sempre enfrentando “o poder capitalista, racista e patriarcal”, como costumava dizer.

Mas, e isso o tornava tão especial, apesar de seus prêmios e de sua visibilidade internacional, nunca deixou de estar no território, conviver com o povo, participar de manifestações locais.

Apenas dez dias antes de seu assassinato, ele liderou uma manifestação - que foi duramente reprimida - contra o projeto hidrelétrico Agua Zarca, por considerá-lo um ataque ao povo indígena Lenca. Sua organização, o Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), venceu a primeira luta contra esse projeto desde que, depois de quatro anos, o Banco Mundial e uma construtora chinesa se retiraram em 2013, alegando o obstáculo representado pela resistência local.

Mas agora chegam fundos de desenvolvimento da Holanda e da Finlândia, acompanhados de ações para mitigar o impacto ambiental da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento). E por todos os meios eles querem implementar esse projeto argumentando que agora, supostamente, ele * estará limpo *.

Berta é a quarta militante do COPINH assassinada neste novo ciclo do projeto. Temia - assim como sua organização - que Agua Zarca significasse a entrada de megaprojetos na região do povo Lenca, onde depois do golpe militar de 2009 o novo Governo cedeu grande parte do território em concessão para a implantação de 17 projetos hidrelétricos e um quantidade semelhante de projetos de mineração.

Q: Você trabalha há anos no México, na mesma região que Gustavo Castro, que foi ferido no mesmo atentado em que Berta Cáceres perdeu a vida. Qual é o perfil do coordenador Amigos da Terra / México?

UMA: Eu o conheço muito bem desde o início dos anos 1990. Gustavo é um ativista e defensor dos direitos humanos de longa data. Ele mora em Chiapas há 20 anos, com foco na defesa de territórios contra a invasão de megaprojetos.

Ultimamente, seu trabalho e o das redes de movimentos sociais na Mesoamérica tem se voltado para projetos de energia (hidrelétrica, eólica, fracking) e mineração. Gustavo é um ativista de atitude modesta, com voz calma, mas que sempre faz questão de defender os direitos humanos e denunciar os ataques de empresas e autoridades contra os territórios predominantemente indígenas. Como resultado desses processos de resistência e gradual conscientização nos últimos meses, muitas comunidades se declararam “territórios livres de mineração”.

Q: Gustavo Castro, segundo informações públicas, vive uma situação muito particular desde 3 de março. Você tem informações mais diretas sobre a situação atual desse defensor dos direitos humanos mexicano?

PG: Tenho informações de primeira mão. Gustavo vive uma situação angustiante de "retenção" em Honduras. Tudo isso, depois do trauma psicológico causado por ter salvado milagrosamente sua vida no mesmo atentado em que Berta foi assassinada.

Q: Você poderia nos dar elementos mais precisos ...?

PG: Para Gustavo é uma situação extrema, porque não só viu Berta morrer em seus braços, mas depois, como sobrevivente do atentado, sofreu maus-tratos por parte das autoridades hondurenhas. Nas horas e dias que se seguiram ao ataque, as autoridades aplicaram um tratamento cruel e desumano, obrigando-o a permanecer acordado durante os prolongados interrogatórios a quem o sujeitou, fazendo-o testemunhar perante diferentes instâncias. O acesso à água e alimentos foi restringido.

Um dos parceiros mexicanos do Swiss International Doctor é o Coletivo Contra a Tortura e a Impunidade. Em um comunicado à imprensa, a referida organização destaca que: "A falta de atendimento médico e psicológico, evitar o sono e submeter-se a interrogatórios prolongados e exaustivos são comparáveis ​​aos métodos de tortura e maus tratos". Por sua vez, o médico hondurenho Juan Almendares destacou que o líder ambientalista “não é apenas vítima de um atentado, mas também vítima de tortura psicológica e da perversa crueldade do sistema jurídico deste país”.

Q: E a situação da segurança em Honduras?

PG: Sabemos que Gustavo se sente inseguro e teme que sua vida esteja em perigo. E isso com razão, porque os assassinos de Berta Cáceres o entregaram como morto, depois de uma bala ter roçado sua orelha.

Ninguém pode assegurar que os assassinos fracassados ​​não poderão tentar cumprir seu propósito e atacar, agora, a única testemunha ocular do assassinato de Berta Cáceres. Gustavo colaborou desde o início com as autoridades para ajudar no esclarecimento do crime, mas também criticou os maus-tratos a que foi submetido. E denunciou a insistência das autoridades em tentar construir um cenário para que o assassinato político apareça como um crime passional ou pessoal.

As autoridades prorrogaram o alerta de imigração que o impede de sair de Honduras para retornar ao México por 30 dias.

Ter sobrevivido a um ataque por pura sorte e sentir que sua segurança está ameaçada constitui, de acordo com o direito internacional, uma situação desumana. Não tem nada a ver com o tratamento elementar que uma vítima de violência extrema merece.

Q: Será que esse atentado de 3 de março pode despertar uma nova consciência pública sobre as questões que Berta Cáceres e Gustavo Castro denunciaram?

PG: Espero que sim. Que este sacrifício não seja em vão. Denunciam uma política intervencionista de grandes empresas transnacionais e instituições financeiras mundiais que promovem esses megaprojetos, que significam a mesma imposição e violação de direitos desde a Patagônia até Sonora, em todo o continente.

Apesar do belo discurso do desenvolvimento “verde” e da participação da população afetada, a realidade no terreno é diferente. Esses megaprojetos significam desapropriação, exílio, corrupção, criminalização do protesto, ruptura do tecido social, violência e migração forçada.

A virada ecoterritorial do movimento social latino-americano é uma reação a esse ataque. E embora haja exemplos de resistências exitosas, aumenta também a pressão discursiva sobre a suposta necessidade desse chamado "desenvolvimento verde". Por exemplo, no recente Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, no final do ano passado, esse negócio pintado de verde aparece muito forte.

As empresas querem consumir energia verde, nosso capital social, nossas economias de aposentadoria no Norte têm que ser investidas em infraestrutura verde, enquanto, na realidade, as comunidades têm que ceder seus territórios, seus rios e suas florestas para esse fim.

Q: Um pensamento final ...

PG: A morte violenta de Berta não é a primeira de um ativista mesoamericano, mas o grande eco de seu assassinato deve servir para exigir uma mudança nas políticas. Não pode ser isso com nossos impostos que pagamos como cidadãos suíços, europeus e desenvolvidos do Norte; com nossas economias; com "nossas" empresas; os defensores da comunidade são mortos.

Não estamos mais na década de 80, onde, por exemplo, na vizinha Guatemala, foram implantadas barragens com financiamento de bancos suíços à custa de massacres da população indígena.

Se uma política pública cria muita tensão social, o mínimo é parar no caminho, suspender e rever as condicionantes.

Em toda a América Latina é preocupante a criminalização do protesto social no contexto da mobilização contra as empresas, como acaba de ser confirmado pelo Observatório de Direitos Humanos da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH). E não há uma regularização clara do direito de consulta e consentimento da população afetada. E para ser claro, consentimento significa que a população também pode dizer NÃO a um projeto. Porque os atuais processos de consulta muitas vezes são uma mera simulação, eles são mais um procedimento na concepção de projetos e interesses multinacionais.

Resumo da América Latina


Vídeo: The Best of Two and a Half Men - Part 1 (Pode 2022).