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O Dakar apresenta a história da "conquista da natureza" pela civilização

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Por eduardo soler

A importância cultural do Rally Dakar

A sexta edição do chamado "Rally Dakar" (sic) na América do Sul reabre o debate, mas acima de tudo os protestos de um movimento ambientalista abrangente. Diante daqueles que expressam que a competição é insignificante, seus impactos ecológicos e sociais diretos são conhecidos. Além disso, tem uma relevância mais profunda, a nível cultural. O Dakar apresenta a história da “conquista da natureza” pela civilização, a retórica da colonização do deserto, que está presente no modelo extrativista.

Desde a sua criação em 2009, quando o concurso pousou na América do Sul, os órgãos ambientais estiveram em alerta. Por um lado, há relatos de impactos ambientais e sociais, que incluem a passagem de um grande número de máquinas sobre um ecossistema frágil, como o árido. Da mesma forma, houve declarações de sociedades arqueológicas alertando sobre os danos que o rali produz no patrimônio cultural dos povos indígenas. A lista amplia os depoimentos de moradores afetados, pois além de alarmar a lista de mortes por acidentes causados ​​pelo Dakar. Por exemplo, em 2011, uma pessoa morreu em Catamarca.

Considerando a relevância de tudo isso, além desses impactos diretos e específicos, insistimos que a importância do "Rally Dakar" é cultural. O próprio nome já nos dá uma pista: não estamos em Dakar, mas a insistência do sinal vem da continuidade do modelo de colonialidade. E a partir da Comunicação Ambiental, é fundamental considerar a dimensão cultural como estrutural na crise ambiental. Isso é entendido pelas organizações, pois são as mesmas que há anos lutam contra a soja, contra a megamineração, contra o extrativismo em geral. Por isso questionar o Dakar não é insignificante, mas, pelo contrário, seria ilógico não o fazer.

O Dakar é uma das expressões marcantes desta concepção que vê o automobilismo como esporte. O ponto é polêmico, mas se tornou um esporte (antes um símbolo de vida saudável), uma atividade que só estimula o fascínio pelo carro. E não é uma relação indireta, na Fórmula 1 as “equipes” são empresas, são grandes corporações, como Mercedes Benz, Ferrari, Honda, Ford, Toyota. Pode-se pensar que as empresas que deram origem ao fordismo e ao toyotismo não têm importância? Para que essas empresas mantenham seus lucros, é necessário incentivar o extrativismo do petróleo, ou seja, o fracking.

Um título exemplar da página 12: o Dakar como guerra.

Neste caso, no Rally Dakar as marcas não são comparativamente tão proeminentes, mas estão e estão muito presentes. Eles preparam seus modelos especiais, eles patrocinam, eles participam do show, que acontece no “deserto”, mas chega até nós através da mídia. E o que exatamente o "dakar rally" mostra? A própria cultura “modernista”, a tecnologia que “vence a natureza”, neste caso superando “o deserto”. O título que a edição desportiva do Página / 12 decidiu hoje é exemplar. A conquista do deserto pelo automóvel (ou motocicleta, ou quadriciclo). Aquela que aparece parodiada em uma propaganda de "automobilistas", com sentido pós-moderno.

No plano social, então, não podemos enfrentar a seriedade que a crise ambiental merece, se continuarmos a destinar (boa) parte da reserva energética (material, fóssil, mas também espiritual) a este tipo de competição. Visto que embora não gastem pouco com combustível (na própria competição, com os carros das equipes, com as transferências da Europa, e outras partes do mundo civilizado, que se juntam aos locais), volto também ao argumento. O principal impacto - além do ambiental e social - é cultural. Se este for o nosso esporte, se for o nosso show, se for a nossa cultura - enfim - a crise ambiental vai permanecer.

Estou escrevendo tudo isso agora, mas aprendi pessoalmente durante um encontro de reflexão sobre a (contra) megamineração, nas palavras de alguns moradores da puna do nosso noroeste. Uma lutadora séria contra a megamineração, ela nos contou com um sorriso e orgulho, como havia expulsado alguns concorrentes da dakar, que queriam passar por seu território. Em vez disso, eles queriam danificar a Pacha. Aí reside, então, a união na luta: o Dakar não está isolado, é parte de uma ideia da concepção entre esta conquista da civilização sobre o deserto. Os protestos não lembram, mais uma vez, que tal deserto não está deserto, e que não quer ser vencido.

Comunicação ambiental


Vídeo: Dakar Review 2000 Part1 (Pode 2022).