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Enfrentando (e queixo) a mudança climática

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Por Eduardo Febbro

Já não cabem mais palavras para definir a fronteira que marcará a cúpula do clima que será realizada em Paris no final de novembro (COP21). A seu modo, entre reuniões preparatórias, militâncias de ONG e sociedade civil e relatórios sobre o estado do aquecimento global, a cúpula já começou. Não há líder político, científico ou religioso que não admita que Paris será a última chance. O postulado é paradoxal porque, na verdade, a oportunidade está perdida há muito tempo. Cristina Figueras, secretária executiva da convenção-quadro da ONU para Mudanças Climáticas, garante que “as mudanças climáticas não serão evitadas”. No máximo, em Paris, se houver acordo, será possível tornar as variáveis ​​climáticas mais “administráveis”. Nada mais. De acordo com estudo elaborado pelo Climate Action Tracker (CAT, organização científica independente com sede em Londres), os planos de ação climática apresentados até agora por 156 dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima não impediriam o aquecimento global do planeta chega a 2,7º C. A batalha do aquecimento global então se perde antecipadamente e a única coisa que estará ao alcance na capital francesa será mitigar a catástrofe causada pela atividade humana descontrolada. E, talvez, nem isso.

“O destino da humanidade está em jogo nas mudanças climáticas”, repete Cristina Figueras. Fabricantes de automóveis como a Volkswagen e suas enormes armadilhas para esconder o nível real de poluição que seus carros causam, ou bancos como o BNP Paribas, que gasta mais dinheiro financiando combustíveis fósseis do que renováveis, não parecem ter a mesma consciência global sobre o destino planetário. Na verdade, o que se fará em Paris é decidir substituir o protocolo de Kyoto, um dos primeiros andaimes da diplomacia internacional destinado a lutar contra o aquecimento global, mas cujos postulados perderam toda a força. Longe de gerar um consenso para preservar a humanidade e seus tesouros naturais, a mudança climática é objeto de uma guerra interna contra o capitalismo onde se lutam duas visões antagônicas entre preservação e desperdício. Nesse antagonismo entra outro: aquele que opõe os países mais industrializados e supremamente responsáveis ​​pelo aquecimento global, com os países menos desenvolvidos, dos quais se exige um esforço semelhante ao das potências poluidoras com poucas compensações. Cerca de 90% da poluição global é governada por acordos mal aplicados, especialmente pelos três blocos cujas emissões de gases de efeito estufa respondem por 50% do total: China, Estados Unidos e União Europeia.

Paris 2015 retoma os objetivos boicotados na cúpula que foi realizada em Copenhague em 2009. Aquela reunião foi um fracasso vergonhoso. O setor mais liberal conseguiu marginalizar todo o sistema das Nações Unidas. O texto final da cúpula de Copenhague foi elaborado pelos Estados Unidos e pela China. A Venezuela o rejeitou, junto com Cuba, Bolívia e Nicarágua. Copenhague foi uma provocação para toda a comunidade internacional. O falecido presidente venezuelano Hugo Chávez costumava dizer: "Mude o sistema, não o clima." Essa declaração final não incluía nenhum compromisso explícito sobre o percentual de redução das emissões de gases de efeito estufa, não estabelecia metas, não estabelecia prazos ou procedimentos de verificação específicos, não era vinculativa. Em Copenhague ficou registrado para a história como países altamente desenvolvidos, principais emissores de gases de efeito estufa e responsáveis ​​por sua expansão desde a era pré-industrial, tentaram impor suas leis.

Conseqüentemente, o que foi enterrado em Copenhague e as cúpulas subseqüentes agora está acontecendo em Paris. Especificamente: baixar a temperatura do planeta em cerca de dois graus, estabelecer quem tem a maior responsabilidade por esse objetivo, distribuir os esforços de forma justa e financiar os custos da transformação nos países menos ricos. O desafio é ainda maior porque, segundo a ONU, as projeções mostram que, até 2100, a temperatura subirá cerca de três graus. Mesmo em um horizonte mais próximo, entre agora e 2030, o termômetro não para de subir. Estima-se que esse aumento seja menor graças aos compromissos assumidos para o período de 2025 a 2030. O processo exige profundas transformações e, acima de tudo, a desorganização das indústrias de energia que não se permitirão dobrar daquele jeito.

Nada nos permite afirmar que Paris é o berço de uma nova humanidade. A luta entre os países industrializados, a polêmica política que separa republicanos e democratas nos Estados Unidos nessa questão, os gigantescos interesses econômicos em jogo, os lobbies que conspiram contra o planeta e a indolência generalizada diante das catástrofes climáticas que Eles perseguem os países menos desenvolvidos não oferecem nenhuma garantia de sucesso. Haverá acordo, sem dúvida, mas será mínimo, longe, longe das necessidades estruturais das mudanças climáticas. Porque o que funciona como uma espécie de espada de Dâmocles sobre a cabeça da humanidade é o modelo de desenvolvimento, predatório e injusto. Para mudar o clima é preciso transformar o sistema e aí está o limite. Os planos de ação climática apresentados à ONU até o momento para reduzir a emissão de gases causadores das mudanças climáticas são insuficientes para atingir a meta de não ultrapassar dois graus de aumento na temperatura global do planeta. Há também a questão do financiamento das medidas e dos consequentes 100 bilhões de dólares necessários à criação do fundo verde, fundo do qual a China, um dos grandes poluidores do planeta, a princípio não participa. O mínimo que se pode esperar então é que se evite outro episódio embaraçoso como Copenhague, onde, entre a forte repressão policial contra os manifestantes e um quase golpe contra os compromissos, foi aprovada a inação que permitiu aos grandes países poluidores continuarem liquidando vidas na terra.

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